sábado, 16 de agosto de 2014

A CLÍNICA QUE VIROU CONDOMÍNIO DE LOUCOS





“Aquilo que jaz no coração de todas as coisas vivas não é uma chama, nem um hálito quente, nem uma faísca de vida, e sim a informação, palavras, instruções.” (Richard Dawkins)

 
Dr Franco da Rocha chegou. A recepcionista gritou e até o louco com pés amarrados aos pés da cadeira se assustou, calou o urro cotidiano por conta própria, não precisou injeção. Dr Marcondes recebeu o colega no meio do corredor, puxou-o para um canto mal iluminado, cochichou veja quem está no quarto em frente. Dona Ribimbóxa. Não era o nome verdadeiro, claro, mas o apelido da matriarca no meio médico.

A mulher cuspiu a dentadura modelada na França a preço de ouro na botina do enfermeiro, que tentava controlar a encrenqueira. Os dois médicos famosos cada qual na sua banda sabiam que iriam lidar com a criatura mais extraordinariamente conhecida na época. Campeã em capa de jornalões, em viagens à Europa, em festas para mais de 500 pessoas, em doações de toda monta para a pesquisa médica.

A filha morreu aos 16, afogada no rio que passava pela propriedade da família. Esta, a notícia oficial, o que de fato ocorrera  -- e disso poucos sabiam -- fora a súbita e irreprimível paixão da menina por um trapezista de circo. O bando de ciganos passou por Pindamonhangaba e dali voltou à estrada com mais um integrante. Dizem que bailarina.

Dona Ribimbóxa se aterrorizou muito mais com a possibilidade de escândalo do que com a perda da filha, pagou mundos e fundos para comprovar um falso atestado de óbito. Convenceu a população valedoparaibana que, compadecida, até deu o nome da pseudofalecida a uma escola de alfabetização para adultos.

A velha senhora tratou de continuar seu circo particular pela vida, não imaginou que tanto faria a ponto de ser despachada pelos seus para um sanatório. Naquele tempo em que a loucura tinha até grau de contágio, diagnosticada por meio de saliva, diziam médicos sem diploma de doutor, qualquer sujeito ou sujeita que ultrapassasse o limite do que era socialmente definido como saudável corria o risco de escafeder-se para sempre num sanatório. Dona Ribimbóxa ultrapassava definitivamente todo limite, ah, como ultrapassava, pois tinha dinheiro. E tanto fez que chegou àquele insuspeito destino, alguém se indignou com tanto excesso e a despachara para a casa de máxima segurança clínica na zona oeste da capital paulista. Dama fina de alto escalão, fingidora até diante do espelho na pia do próprio banheiro, esta a mulher que agora precisavam deter. Nunca soltou uma lágrima, disso se orgulhava.

Dr Marcondes colou o queixo no peito, de tanto que se curvou, culpava-se pelo parentesco com a matrona de pele de alabastro e coices de mula. A tentativa de fingir que a realidade não existia cobrindo-a com um imenso lençol de fantasia, tal e qual os panos com que se cobria mobília de família desaparecida em tragédia natural ou bélica, essa tentativa era tão tipicamente ribimboxiana (continuemos com o codinome já que não se pode nomear demônios sem que sejam chamados à cena) que ninguém queria identificá-la como louca, sob pena de ser assassinado por um cabra de aluguel a mando da mulher e seus asseclas.

Décadas dessa desconjuntura deram no que deram: o conhecido asilo de loucos, ou clínica de doenças nervosas, como a oligarquia preferir, recebia entre seus humildes clientes a criatura tão sobejamente bafejada, supunham, pela sorte.  Como já haviam feito com a filha, os familiares providenciaram novo atestado de óbito: a mãe afinal sucumbira à dor, o coração tivera um colapso.

Houve um enterro na cidade natal, com pompa. A dentadura paga ricamente foi parar no lixo hospitalar, dali roubada e vendida num rincão do Brasil a uma mulher que tinha arcada dentária quase igual. A sertaneja riu como o mar aberto na costa do seu estado natal, já a interiorana definhou em meio a pelancas da antiga gordura.

Emagrecida, velha como veio seco de rio seco, até a morte com quase cem anos esconjurou cada um que cruzasse seu caminho, aconselhava os incautos sabe com quem está tratando? Com a mulher mais rica desse país talvez do planeta. O pior é que era verdade, até hoje a fortuna da família financia a política, mas para efeitos “legais” ninguém dessa família foi, é ou será louco. Apenas desapartados de sentimentos exaltados, no mais, acercam-se de finura e elegância. Todos encantadores.

Nem meio século depois, o sanatório já não existe. O Dr Franco da Rocha virou nome de rua e de uma cidade na redondeza da capital paulista, honrarias extremas, já a falecida rica que alojou por quatro décadas não descansou: continua a perambular no quarteirão que se tornou um bem-sucedido condomínio classe média de arranha-céus, praticamente os primeiros do bairro.  Na mesma medida em que os prédios arranham os céus, as almas que estiveram no antigo sanatório chafurdam a pedra de fundação da casa de saúde, seus urros chegam aos ouvidos dos atuais moradores como zumbido de pernilongo. Ninguém identifica, mas todos odeiam a picada quando a reconhecem. Muitos morrem com choque anafilático.  Outros enlouquecem e protagonizam tragédia moderna. Dona Ribimbóxa lidera os zumbis. 
 
 


A história acima é uma ficção, mas os médicos citados são reais e introduziram a psiquiatria na capital paulista.



Claro Marcondes Homem de Mello nasceu em 5 de novembro de 1866 na cidade de Pindamonhangaba (SP). Formou-se em Medicina e fundou uma casa de saúde no bairro de Perdizes, onde fica a rua que leva hoje seu nome. A clínica ocupava todo o quarteirão entre as ruas Homem de Mello, Franco da Rocha, João Ramalho e Ministro Godói . Também trabalhou no Hospício dos Alienados. Morreu em 23 de fevereiro de 1924. (Fonte: www.homemdemello.com.br/drhomemmello.html).

Francisco Franco da Rocha, profundo humanista, foi membro da Academia Paulista de Letras: ocupou a Cadeira número 3, que tem como Patrono Matias Aires, tendo sido fundada por Luiz Pereira Barreto e, em seguida, conquistada por Alfredo Pujol antes de Franco da Rocha. Sucederam a Franco da Rocha, na Cadeira número 3, Mário de Andrade, Washington Luiz Pereira de Souza e, Lucas Nogueira Garcez. A propósito de Franco da Rocha literato, Lucas Nogueira Garcez, no discurso de ingresso na Academia, em 1958, comentou: “Nas suas obras descobre-se a vocação do escritor: lê-se o “Pansexualismo de Freud” com o prazer de quem saboreia uma verdadeira obra literária". Quando Franco da Rocha faleceu em São Paulo, em conseqüência de enfisema pulmonar, aos 69 anos de idade, em 8 de novembro de 1933, era preciso concordar com a oração fúnebre de Ulysses Paranhos que, em síntese crítica, proclamou-o Pai da Psiquiatria Paulista. (Fonte: http://www.polbr.med.br/ano03/wal0403.php)


 
 

 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

ESCREVER É "OUTRAR", PARA AMÓS OZ

 


“O bom humor é o melhor antídoto contra o fanatismo”. A frase é do escritor Amós Oz, a quem recorro para escapar do fanatismo que as redes sociais praticam. E na qual todos nos enredamos de vez em quando ou muitas vezes. Fugir do fanatismo não é se isolar no pico da indiferença, mas se solidarizar a partir do cada vez mais raro – e dificílimo – exercício da empatia.   

A seguir, mais Oz para quem gosta de ler, escrever e pensar mais do que reproduzir opiniões de terceiros nas redes sociais. São versões, livres, que fiz do inglês, reassistindo ao programa Roda-Viva (TV Cultura) de 2012:

“Quando volto da minha caminhada no deserto a cada manhã, tomo a minha xícara de café, sento-me à escrivaninha e começo a me perguntar: e se eu fosse ele? E se eu fosse ela? E se eu fosse eles? E me coloco no lugar de cada um deles enquanto escrevo”.

“Não me preocupo com a repercussão que a opinião de um personagem pode ter, porque ele não me representa. Eu não defendo pontos de vista na literatura; defendo-os em artigos”.

“Eu acredito no leitor que se pergunta: que parte do livro é relevante para a minha vida?”

“Há algo curioso sobre os prêmios literários: você os recebe por algo que não poderia deixar de fazer. É como ser recompensado por respirar. Se, em vez de prêmios, eu recebesse penalidades pelas quais tivesse que pagar, ainda assim eu não deixaria de escrever.”

“A tragédia e a comédia não são dois planetas diferentes, mas duas janelas que apresentam diferentes ângulos de uma mesma paisagem”.

“Eu defendo a arte de fazer concessões porque todas as pessoas estão certas em relação a um tema, não 100% certas, mas podem estar 50% certas e isso é o bastante para que sejam ouvidas”.

“Eu não escrevo histórias sobre mocinhos contra bandidos, escrevo sobre os conflitos entre o certo e o certo. Esta é a natureza da tragédia, o confronto entre duas reivindicações poderosas”.

“Eu escrevo comédias trágicas. E não escrevo um parágrafo devastador seguido por outro engraçado, eu escrevo um mesmo parágrafo que seja doloroso e engraçado.”

“Não conheço fanáticos bem-humorados e nunca conheci alguém com senso de humor que tenha se tornado fanático.”

(Amós Oz)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

VIRGINIA WOOLF: A INSIDIOSA VISITA DA MORTE




Uma cobra abocanha um sapo, que fica entalado na sua garganta. A cobra é voraz, o sapo não se entrega, a cobra engasga e enjoa. O sapo agoniza.

Esta imagem real, que a escritora britânica Virginia Woolf presenciou com seu marido, Leonard, num brejo, acompanhou-a até o final da vida, tornando-se uma cena de seu último livro, Pointz Hall. Representa o imperialismo de todos os tempos, vitimando países e populações, além de culturas. E extirpa os valores humanos pela raiz a pretexto de salvar o homem.

Na época da visão da cobra e o sapo, início dos anos 1930, uma crise econômica de grandes proporções assolava a Inglaterra e o mundo capitalista. Estopim da bomba? De uma delas, são tantas, e quando finalmente nos alvejam é tarde demais. São ignorados todos os sinais de decadência de valores e de acirramento de sentimentos extremistas. A guerra é insidiosa e se entremeia ao cotidiano com suavidade tenaz, em princípio, escamoteando a realidade, sempre com a cumplicidade da mídia de velas infladas na direção de ventos e interesses a favor.

Virginia tinha seu próprio e obstinado modo de leitura do noticiário, discernindo fato de fantasia. Temia tanto a invasão nazista quanto a propaganda inglesa e sua fogosa produção de heróis. Os heróis de hoje, pensava, talvez sejam os párias de amanhã, tocando realejos para sobreviver. Sabia, por experiência, como é sinistro o destino dos veteranos de guerra.

Virginia atravessou as sombras do cotidiano em meio às cisões, “a separação entre os reinos da grandeza e da pequeneza”. Nessa gangorra de sobressaltos, as contradições se aguçavam, especialmente na alma de uma artista como Virginia. Ela então milita, revê padrões, viaja ao passado na falta de perspectivas do presente, resgata a dor que acalentou a duras penas na vivência da Primeira Guerra. Psicanalisa, conclui que o peso do sofrimento do pai, também escritor, a condenou a viver em uma estufa emocional e intelectual. Que finalmente se estilhaça na chegada dos 50 anos.

"Todas as vaidades são menos que um caramujo na Zínia", escreveu Virginia Woolf a sua irmã, Vanessa, nessa idade, redimensionando os campos e superposições da existência. Alardeou que o alheamento não é alternativa para o artista, um ser amalgamado com as paixões humanas, por isso mesmo aprofunda a sensibilidade em tempos de sofrimento. A saída é optar pelo caminho possível, que é a política. E Virginia o trilhou.

Persistiu, produziu muito, sofreu e enlutou nos anos que finalmente culminaram na guerra declarada e em uma sociedade em desordem na qual o suicídio era assunto corrente. Em 14 de junho de 1940, as tropas nazistas tomaram a cidade de Paris, acuando a escritora e toda sua esperança de livramento do desespero interior.

Em 28 de março de 1941, retomando a cobra e o sapo, que a levaram a um pesadelo em que uma pessoa se lançava ao mar, descobriu que essa pessoa era ela mesma. Mergulhou no lago com pedras nos bolsos, asfixiou-se com a água e com a genialidade que escapa a classes sociais, escolhas políticas e sobretudo à mesquinhez da raça humana. Não quis punir ninguém, deixou cartas de amor para o marido e a irmã.


“Se eu não sofresse tanto, não poderia ser feliz”

(Virginia Woolf, em seu diário)

domingo, 10 de agosto de 2014

A TENTAÇÃO DE MATUSALÉM

 

Está na Bíblia: Matusalém foi o homem mais velho a morrer nesse planeta, tinha 969 anos. Era filho de Enoque, um bom servo de Deus, que foi arrebatado aos céus, não passou pela morte. O homem mais velho do mundo inspirou um conto, “A morte de Matusalém”, de Isaac Bashevis Singer, autor  que ganhou Prêmio Nobel.
 
O conto faz uma alegoria da vida humana na Terra, das contradições da carne, mistura de desejo e amor, ética e corrupção, meias verdades e mentiras inteiras, bondade e benevolência com o mal. Aos 969 anos, Matusalém só espera pela morte no seu abafado casebre: chega Naamá, a belíssima mulher que ele deseja já, literalmente, há séculos. Ela mora na terra de Caim, que se casou com Lilith, a Eva negra, luxuriosa. Os homens na terra de Caim convivem com demônios, assim como no nosso mundo, de Adão, os homens supostamente, convivem com anjos. Da trama engraçada vem a interpretação da perfeita alegoria que é a vida do homem no mundo. Matusalém era avô de Noé, que já se empenhava na missão de construir a arca do dilúvio, porque Deus estava arrependido de sua descendência na terra, queria ter a chance de recomeçar.
 
Matusalém, depois de transar com Naamá, conhecer a terra de Caim, cheia de demônios e todas as barbaridades que, afinal, estão adormecidas dentro de cada ser humano, decidiu que só queria saber mesmo da morte honesta, estava muito velho para farras e para entender um mundo tão caótico. Pede para voltar à sua casa e amanhece morto no dia seguinte. Seus pensamentos ficam planando à volta do corpo exaurido, pronto para os vermes, ele pensa que todo castigo de Deus, como o dilúvio, é vão, porque desde o princípio carne e corrupção são uma coisa só. Por mais que os filhos de Adão tenham boas intenções, seu dom da razão é precário, as ilusões de espaço e de tempo os esvazia de propósito ou justiça.
 
 
Reprodução da obra "Lilith", de John Collier, 1887
 
 

MEDO DE AMAR

"Une premiere" Anders Zorn -1888

Um bando de moleques na beira do rio e um deles não sabia nadar. Como é que um menino de sete anos, de estatura baixa para a idade, com mãe morta no parto e pai que sumiu no mundo pode não acompanhar a turma em uma aventura sem ser chamado de covarde?

Uma mistura de ingenuidade com arrogância sempre dominou a criança, que chegou a deixar a vila uns três anos antes, em direção ao sul, de navio, escoltado pelo pai, o próprio. Jamais se esqueceria da cena, talvez a mais feliz de toda a sua vida, pensou no mesmo instante em que ia tirando a roupa para pular na água. A lua estava no céu e o sol se punha lentamente, espumando em cores nervosas no horizonte atarracado com o convés. Rio de Janeiro, isso mesmo, este, o destino. Desembarcaram só para, nem dois meses depois, o pai se apaixonar por uma estranha.

Obedeceu o coração e a mulher, enviando o filho de volta para o sertão junto com um conhecido. No caminho, sacolejando no ônibus que cheirava mal, o garoto comparava o por do sol...sim, o que se avistava tinha sua beleza, mas o da chegada à cidade grande tomava a maior parte da sua memória de coisas boas.

Voltou à tarefa, cueca no chão, não tinha mais desculpa, era mergulhar ou apanhar. Pulou sem uma noção precisa do que estava fazendo, talvez quisesse morrer. A correnteza o levou, tudo escureceu como lamparina que fica sem azeite no meio do mato. Recobrou os sentidos com o tranco da curva do rio, que segurou firme seu pequeno corpo como talvez a alma de mãe no céu o fizesse. Ou tenha feito.

Desenroscou-se dos galhos, detritos, escalou um pedacinho de ribanceira. Percebeu que tinha se afastado quase 500 metros do ponto em que saltara para o susto.

Tornou a se assustar quando viu que sua roupa tinha sido levada. Nu e à margem, decidiu sem opção rumar para casa, buscando sombras e beirada de muro onde se esconder. Estava bem próximo de ser bem-sucedido no esforço quando a tia gritou, chamando a atenção -- pareceu à criança -- até de quem estivesse dentro de casa no outro lado da cidade.

Recolheu-se, foi recolhido, nunca mais ensolarou até decifrar a cidade de pedra, para onde se mudou, cresceu, estudou, casou, teve filhos, netos, e cumpriu a determinação férrea de não lamentar passado. Comprometeu-se com a felicidade por decreto e pouco se desviou nem das cláusulas minúsculas no rodapé. Quando de novo submergiu nu até o pescoço não estava nem no Rio de Janeiro nem no da infância. Resgatado aos gritos pela vida, foi repreendido pela alma da mãe: “quando é que vai aprender a nadar?”

                                                                        (...)

 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O COBRADOR VEM AÍ E ELE NÃO ESTÁ DE BRINCADEIRA


 

“Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.” Este é um trecho do conto O cobrador, de Rubem Fonseca.

 O autor consegue criar um personagem saído do esgoto da humanidade pronto para cobrar todos que lhe devem alguma coisa. E é praticamente todo mundo, inclusive o marginal que lhe vende uma super arma.

E o cara da Mercedes que buzina e o assusta num momento em que ele estava se distraindo com uma esgarçada sensação de felicidade ao imaginar que, em minutos, estaria com a nova arma no bolso. Matou o sujeito.

A gênese desse sujeito obcecado em cobrar não importa. Se alguma circunstância familiar agravante detonou uma psicose, isso é tema para estudiosos de gabinete. E a conclusão a respeito não importa. O “cobrador” é verossímil, legítimo e reinventa o próprio ódio como espectador do templo do consumo. Ele conta:

“Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta. Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar.”

O despojamento do autor do conto, ao não se preocupar com ser politicamente correto, com fazer denúncia ou ceder a qualquer elaboração intelectual ao longo da narrativa, é o que mais prende à leitura. E Fonseca consegue surpreender, como se já não bastasse tanto súbito em toda trama: o seu protagonista é poeta. Mesmo! Ele revela sua vocação a certa altura da estória, na casa de uma dona, uma dura, que o pegou na rua:

“Ela pergunta o que eu faço e digo que sou poeta, o que é rigorosamente verdade. Ela me pede que recite um poema meu. Eis: Os ricos gostam de dormir tarde/ apenas porque sabem que a corja/ tem que dormir cedo para trabalhar de manhã/ Essa é mais uma chance que eles/ têm de ser diferentes:/ parasitar,/ desprezar os que suam para ganhar a comida,/ dormir até tarde,/ tarde/ um dia/ ainda bem,/ demais./
Ela corta perguntando se gosto de cinema. E o poema? Ela não entende.”

Até aí, o cobrador não tem interlocutor, situa-se fora de qualquer média, acima dos perambulantes da rua como ele, abaixo dos intelectuais, acima dos pequeno-burgueses amantes de comerciais de TV e ignorantes dos direitos de um cidadão.

Não é possível dizer que dá pena ver ele errar na mão por buscar tudo no tiro, na ironia e no tapa. Na ironia porque ele não grita e sempre, ao final de cada ato, ri com descrença dos seus pares ou párias. Não dá para julgar criatura tão deformada pela existência. Chega um momento em que vem uma vontade de torcer para que ele saia daquele lugar onde foi parar. Mas se é um beco, podem pensar os mais apressados!

E daí nova surpresa,  outra bizarrice, desta vez confundida com final feliz. O cobrador ama e é correspondido. Extraordinariamente correspondido por uma branca, ressalta, que mora num prédio de mármore na zona sul do Rio. Vira amador além de cobrador.

Ana, a amada, que ele apelida de “palindrômica”, vai para o subúrbio morar com o delinqüente às vésperas do Natal. Surpresa, ela gosta de armas. Impregna o ar com proposta que cheira a ideologia, mas é pura anarquia. O cobrador agora amador pensa em profissionalizar o estilo. Mas não embarca nos sonhos, continua religioso na descrença.

“Hoje é dia vinte e quatro de dezembro, dia do Baile de Natal ou Primeiro Grito de Carnaval. Ana Palindrômica saiu de casa e está morando comigo. Meu ódio agora é diferente. Tenho uma missão. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei. Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo. Ana me ensinou a usar explosivos e acho que já estou preparado para essa mudança de escala. Matar um por um é coisa mística e disso eu me libertei. No Baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos. Será o meu último gesto romântico inconseqüente. Escolhemos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um supermercado da zona sul. Serão mor­tos por uma bomba de alto poder explosivo. Adeus, meu facão, adeus meu punhal, meu rifle, meu Colt Cobra, adeus minha Magnum, hoje será o último dia em que vocês serão usados. Beijo o meu facão. Explodirei as pessoas, adquirirei prestigio; não serei apenas o louco da Magnum. Também não sairei mais pelo parque do Flamengo olhando as árvores; os troncos, a raiz, as folhas, a sombra, escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter, num pedaço de chão de terra batida. Eu as vi crescer no parque e me alegrava quando chovia e a terra se empapava de água, as folhas lavadas de chuva, o vento balançando os galhos, enquanto os carros dos canalhas passavam velozmente sem que eles olhas­sem para os lados. Já não perco meu tempo com sonhos.”

O final da história está no livro. O livro leva o nome do conto, O Cobrador. Vale a pena procurar o cobrador antes que ele procure por um de nós, afinal, ele não se aposentará enquanto persiste o império da injustiça social.


( Ilustração do Blog Via Literatura)



..

SHARON E EU





O despertador nem tocou ele já  tinha pulado da cama. Olhou lascivo para a loira na parede do escritório. Como se não visse aquela barriga mole de chope, a falha  de cabelo no alto da cabeça e um dente molar ausente na arcada amarela de nicotina, sentiu-se o mais irresistível dos homens diante do espelho do banheiro. A esposa que madrugara arrumando café e despachando menino pra escola estranhou encontrar o marido já  no banho tão cedo. E de ótimo humor, como pôde constatar mais tarde. Um ardente beijo de despedida deixou a mulher ainda mais desconfiada o resto do dia. Que bicho tinha mordido o homem resmungão com que se casara? 

Consultando o relógio, ele constatou que chegaria com tempo de folga. Queria ficar bem colocado no saguão, pra ver de camarote. Só não contava com um congestionamento recorde, absolutamente incomum, no caminho. Roeu todas as unhas e andou quilômetros pelo corredor do ônibus, num vai-e-vem frenético limiar do desespero. Quando finalmente desceu no ponto de seu destino, disparou em direção ao prédio. Aonde chegou bem a tempo de ver uma limusine saindo cercada de enorme multidão. Avistou Denílson, o filho da mãe sortudo, no meio. O amigo confirmou sua suspeita: Sharon Stone já  havia ido embora. Durante a meia hora em que ficara no prédio alimentou incontáveis fantasias nos marmanjos de plantão. Tinha quem jurasse que cruzara com ela na porta do toalete e que ela lhe enviara um sexy beijo. Chegaram, alguns, a dizer que tinham ganho souvenirs da deusa. E todos foram unânimes: era mais bonita ao vivo que no cinema. 

O inconsolável homem que não viu nada vestiu sua capa branca e foi se acomodar na cadeira manca do laboratório, conformado com mais um dia de muito trabalho. Nessa hora, entra Denílson com uma latinha. “Adivinha o que eu tenho aqui?” E o que poderia ser, imbecil, se estava numa latinha e aquilo era um laboratório de análises clínicas? “As fezes da Sharon Stone”, e o amigo anunciou empolgado que ele fora o contemplado da sorte: ia processar o exame da loira diabólica. O homem sorriu amarelo, com ar de dúvida. Seria tão vantajoso assim? Só teve certeza de que estava pagando um mico quando abriu a lata, aspirou o odor e uma náusea o fez ver que, afinal, Sharon Stone não era tão especial assim. Ela fedia como todas as outras. “Lembre-me de jogar fora aquele pôster de ´Instinto Selvagem´ do escritório”, pediu à esposa, por telefone, já reencarnado no marido resmungão e entediado.

MACHADO DE ASSIS: QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS





Tradução, adaptação ou simples plágio? Há mais de um século estudiosos questionam a obra machadiana "Queda que as mulheres têm para os tolos" numa investigação rigorosa que não chegou, nem chegará, a uma conclusão definitiva.

Publicado em cinco capítulos entre 19 de abril e 3 de maio de 1861, na revista carioca quinzenal A Marmota, o texto escrito por Machado nunca trouxe indicação de autoria ou versão, prática comum na pré-história dos direitos autorais.

Seja como for, esse livreto compara homens apaixonados "de espírito" a "tolos", além de, com muita delicadeza, desqualificar as mulheres na sua capacidade de julgar as intenções "sérias" ou "risíveis" de homens e homens. E Machado de Assis se reporta a Victor Hénaux, em De l´amour des femmes pour les sots (ver Queda que as Mulheres têm para os Tolos – Editora Unicamp) para gerar mais polêmicas na vida já cheia de controvérsias dos casais.

Machado defende que as mulheres preferem os tolos porque eles são óbvios, pródigos em elogios, e inconstantes, passando de conquista a conquista sem crise de consciência, já que o público feminino lhes concede, numa próxima e próxima vez, o privilégio da escolha.
Já os pobres homens de espírito carregam lembranças de amores eternos não correspondidos pelo simples fato de serem "sinceros" em vez de melodramáticos. Qualquer semelhança com os dias de sempre pode não ser mera coincidência.

Hoje mulheres comandam decisões mundiais, são chefes de família em porcentagem que quase se iguala à dos homens, levantam a cabeça e assumem suas vidas quando estão sós. E as decisões românticas: privilegiam coração, razão, felicidade pessoal ou desvarios do amado? Esta é para pensar em casa, lendo Machado de Assis e despindo suas controvertidas e magistrais protagonistas feministas.

DUAS CARTAS E SETE PERGUNTAS PARA DRUMMOND






Quando Carlos Drummond de Andrade morreu, em 17 de agosto de 1987, muitos amigos meus me trataram como viúva. A essa altura, eu e o Carlos – que é como a família dele, particularmente netos, o chamava – já tínhamos uma pequena história, nascida em novembro de 1985.

Nessa data, escrevi uma carta para ele, solicitando uma entrevista. Demanda injustificada, assumo, considerando-se que eu nem estava trabalhando em algum veículo jornalístico e mal tinha começado a ser “foca” na vida. Fui inspirada pelo Halley!

Em 1910, o cometa passou pela terra espalhando o medo infundado de que envenenaria a atmosfera, causando muitas mortes. Drummond tinha oito anos, acompanhou atentamente o episódio e, mais tarde, reproduziu-o em crônica.

A crônica serviu de prefácio para um livro de 1986, que falava sobre a volta do Halley naquele ano. Eu revisei o livro e, conversando com o editor, descobri que o poeta era muito acessível, tinha enviado, por carta, uma autorização para a publicação do texto, sem mais.

A primeira carta

Pedi e peguei o endereço do Drummond, caneta, muitas folhas de papel e me sentei à mesa, planejando o que dizer para despertar o interesse do Carlos por mim. Depois de muitas páginas rasgadas e abandonadas, baixei a censura e contei como aprendera tanto sobre a vida com ele.

Fui flechada por Drummond definitivamente aos 11 anos, quando reli Quadrilha em plena fase de paixão desenfreada não correspondida. Ali me convenci de que, no amor, a gente raras vezes acerta de primeira. Assinei a longa carta e mandei para os correios, me esqueci.

Voltando para casa, num fim de tarde, encontrei embaixo da porta um envelope manuscrito, no verso, numa etiqueta, as famosas iniciais CDA e o endereço da rua Conselheiro Lafayette. Abri e nem acreditei: “Sua carta é linda e uma carta assim é um retrato espiritual de quem a escreve”... Palavras dele, numa letra cuidadosa e familiar!!!

Drummond me respondeu brevemente, com a sua assumida economia de palavras, dizendo-se disposto a atender-me na entrevista solicitada, mas que fosse à distância, porque dezembro era um mês “febril de chuva e calor, compras e vendas, barulho, etc.”

Propôs: "mande-me perguntas por escrito e eu, na calma do escritório à noite, responderei a tudo. Combinado?”

O alívio por ter escrito a carta certa (tantas vezes rascunhada, rasgada e reiniciada), e obtido a melhor das respostas, me travou. Eu não conseguia responder.

A segunda carta

Levei mais de um mês para lhe enviar as perguntas solicitadas “por mim mesma”, sofri ainda mais para escrever do que na primeira vez, tanto que só consegui formular sete perguntas.

Mas Carlos foi rápido no retorno, respondeu à minha atrasada carta com uma bronca discreta e uma reflexão:
“31 de janeiro de 1986

Cara Chris,

Já nem esperava mais receber as suas perguntas e concluí que, se elas não vieram, era porque as respostas seriam dispensáveis. Afinal, toda resposta, diante do silêncio de Jesus perante Pilatos, não é mesmo insignificante?”

(Não, pensei, não há nada de insignificante nas respostas de um homem que colocou uma pedra no caminho convencional da escrita)
 
A carta continuava: “mas você acabou me formulando sete questões e aqui estou tentando respondê-las, com o pior serviço datilográfico do mundo, perdoe.”

Seguiram-se as respostas, vou deixar de lado as questões e apenas apontar os temas que abordei, são eles:

Crônicas aposentadas
1) Deixei de escrever crônicas porque já me aborrecia fazê-las, depois de anos de militança. Tudo cansa, inclusive e principalmente escrever. Não busquei novos caminhos: apenas o silêncio.

Queima de diários
2) Não tenho mais diário, e no Observador no Escritório deixei claro que destruí o que mantive por muitos anos, na convicção de que é inútil deixar essa espécie de autorretrato de coisas íntimas para a posteridade.

Anos que passam
3) Minha relação com o tempo é a do comum das pessoas, nada simpática. Assisto à desmontagem do ser que ele construiu e que depois vai se divertindo em destruir, você acha isso engraçado?

Sobre o suicídio (Pedro Nava, seu grande amigo, havia acabado de se suicidar)
4) O suicídio continua sendo para mim um dos maiores mistérios. Toda especulação em torno de suas notificações e significados continua vã, pois falta o testemunho do principal interessado, o suicida. A única coisa que posso dizer é que não o condeno.

Sobre o amor

5) É um aprendizado infinito, que a vida não deixa concluir.

Sobre agradar os fãs
6) Nunca tive pretensão de influir sobre qualquer público e se há leitores que me distinguem com essa simpatia, isso ocorre por conta exclusivamente deles. Isso me conforta, é claro, mas não me anima a escrever em determinado sentido.

Sobre Minas (onde nasceu)
7) Carrego Minas como um peso leve nas minhas costas, um peso de que não me livraria, mesmo que o quisesse (e não quero).

Perguntas respondidas, desculpou-se na despedida: “Fui muito rápido, Chris: Desculpe o mau jeito de nascença e receba um carinhoso abraço do Drummond (assinou).














MÁRIO LAGO: SEM CASACA E DE BRAÇO DADO COM A BOEMIA





Dia 26 de novembro de 2012, Mário Lago completaria 100 anos. Morreu em 2002 sem contas a acertar com a vida. Fez tudo o que quis, dispensando já aos 13 anos a casaca de diplomata da qual a mãe fazia questão. Justificou para o filho: “Você é alto, magro, vai cair muito bem”.

Lago tinha outros planos e, apesar da pressão contra, ninguém na casa tinha moral para reclamar. O pai e avós, além de tios, eram todos músicos, como Mário que, já aos 15, fez uma marchinha para a namorada, com declaração de amor ditada pela militância política, outra vocação. Dizia: “nosso amor vai melhorar quando vier a Constituição”.

Com esses versos, o adolescente selou o destino definitivo e um elefante branco invadiu a sala de visitas da casa. O pai sentenciou: “Você está treinando para profissão de fome”.
Ainda bem que não foi praga, nem foi de coração, não pegou. Mas dinheiro, a julgar pelo que o Mário personagem público expunha, nunca sobrou. Nem faltou. Em entrevista no programa “Ensaio”, da TV Cultura, Mário se aventurou a fazer uma conta de cabeça. Complicou-se tanto que ninguém conseguiu sequer ajudá-lo. Explicou que foi reprovado três vezes em matemática e soltou a piada, já que bom humor, sim, esbanjava: “Eu não sei somar, por isso sou pobre, sei menos ainda multiplicar”.
Este é "o" Mário, segundo contam a lenda, a história e seu filho, Antônio Henrique Lago, jornalista, que faz aqui um rápido e delicioso perfil do pai. Antônio Henrique tem o mesmo humor e convicções do pai, além de já ter produzido obras memoráveis no campo da reportagem.

Acompanhe a entrevista que fiz, a seguir:

Ator, produtor, diretor, compositor, radialista, escritor, poeta, autor de teatro, cinema, rádio e TV, frasista (que eu trocaria por “filósofo do cotidiano”), militante sindical, ativista político e boêmio. Está tudo lá, no site oficial do Mário Lago. Entre tantas facetas, uma ou algumas se sobrepunham a outras?
Antônio Henrique Lago - O político sempre. Discutia as questões brasileiras diariamente com a família, amigos, o motorista de táxi, qualquer um que puxasse conversa. A pregação por uma sociedade mais justa e igualitária jamais ficava escondida ou em plano secundário. Papai nunca perdeu uma campanha política. Comunista por formação ideológica, sempre apoiou os candidatos de esquerda e do seu partido.
Mas há também o ator, sempre, porque este foi uma parte importante da vida profissional dele. Dar vida a personagens era parte do “ser Mário Lago”. Fazia laboratório sozinho para enriquecer o papel, discutia com o autor e diretor todas as cenas. Atuar era um exercício de vida!
E o escritor/autor/poeta, igualmente, sempre. Nos intervalos de gravação, nas férias, ele criava sempre um projeto para escrever. Durante as filmagens de O Padre e a Moça, recolheu material para um livro sobre o Chico Nunes das Alagoas, repentista e boêmio. Numas férias, traduziu a peça Fuente Ovejuna, do espanhol Lope de Vega. Do mesmo modo, escreveu uma peça sobre a revolução dos alfaiates - Foru Quatro Tiradentes na Conjuração Baiana -- que acabou censurada. Nunca deixou de compor, não havia como conter os versos.

Em casa, quais características pessoais predominantes você enumeraria?
AHL - Conversa franca, sobre qualquer assunto. Respeito às decisões de cada um da casa. Clima muito democrático.

Boêmio em um casamento que durou a vida toda. Como o Mário dividia o tempo entre o amor/família e as paixões, como a arte. Ficava em déficit com um lado ou outro?
AHL – Olha, papai sempre ia para os locais da boemia e levava minha mãe junto, mas eu lembro de ele chegar para uma conversa noturna sobre política, meus estudos - às vezes ele até me ajudava com os trabalhos escolares. Discutíamos minhas decisões pessoais e ele sempre respeitou as minhas escolhas. Ele e mamãe tinham a democracia entranhada no corpo e na mente.

Como era a casa do Mário? Um burburinho de música, amigos, festas? E o silêncio para criar, também habitava esse lar de artista?
AHL - A porta da casa de papai estava sempre aberta. Dolores Duran ia lá mostrar músicas. Carlos Marighela ia lá discutir coisas do PCB. Meus amigos e companheiros de militância política iam lá conversar. Era assim desde que me entendo por gente.
Na hora de criar, papai ia pro quarto, fechava a porta e se transportava para a criação, quer fosse para estudar as falas de um personagem, quer fosse para tocar o projeto de um livro.

Em uma frase, na sua opinião, qual o maior legado do Mário para:
- Você, filho
AHL - A defesa de uma sociedade justa e igualitária com o fim da exploração do homem pelo homem.
- A arte
AHL - Grandes interpretações como a do pescador Santiago, de O Velho e o Mar; e o Atílio da novela Casarão. Os versos de Nada Além, de Aí que saudades da Amélia e Aurora.
- A sociedade
AHL - Um exemplo de coerência política, honestidade de princípios. Tudo parte da luta pela sociedade sem exploração e opressão.

Sem segunda opção, qual música, filme (como ator ou diretor), papel na TV você colocaria como número 1 no ranking das criações do Mário?
AHL - Como música, eu gosto mais, puramente pessoal, do Nada Além. Mas sempre me emocionei muito nos bailes de carnaval ao ouvir o povo cantando Aurora. O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, como filme. E papel na TV foi o Atilio, do Casarão.

Mário criava compulsiva ou metodicamente? Há ainda muita produção dispersa, inéditos? O que podemos esperar?
AHL - Papai era um criador compulsivo/metódico. Ele não podia ficar parado. Se não estivesse gravando, estava bolando algo e escrevendo.Escrevia, depois lia, corrigia, mudava, lia de novo e assim por diante, até ficar satisfeito.

O Mário era polivalente e multimídia. Como ele se relacionava com as novas tecnologias? Chegou a incorporar essa linguagem internética a seus trabalhos?
AHL - Papai não chegou a usar a tecnologia multimídia moderna. Ele exercia a multimídia pessoalmente. Acho que a formação sem a internet bastou para ele. Além do que ele conviveu muito pouco com a internet.

Qual, na sua opinião, foi a grande realização dele no campo das artes? De qual ou quais obras ele mais se orgulhava?
AHL - Papai achava que cada texto, música e personagem eram um sucesso particular e parte do todo que ele considerava o melhor da sua obra. Ele realmente gostava de tudo que fez.

E na política, qual a grande conquista e a grande frustração na sua vida de lutador?
AHL - Ele tinha muito orgulho de ter participado do comando da greve dos radialistas de 1962, que resultou na regulamentação da profissão. E de ter participado das lutas pela liberdade e ter visto as quedas das ditaduras de Getúlio Vargas e dos militares. Acho que frustração foi a de ver que o homem ainda vive numa sociedade intrinsecamente injusta e exploradora.

Pacifista e inconformado, por isso mesmo eterno militante, que causa ou causas você acha que ele defenderia hoje?
AHL - Acho que ele continuaria a lutar contra a exploração do homem pelo homem. E, é claro, as causas ambientais também estariam entre as suas preocupações.

Fonte: Portal Vermelho