segunda-feira, 11 de agosto de 2014

VIRGINIA WOOLF: A INSIDIOSA VISITA DA MORTE




Uma cobra abocanha um sapo, que fica entalado na sua garganta. A cobra é voraz, o sapo não se entrega, a cobra engasga e enjoa. O sapo agoniza.

Esta imagem real, que a escritora britânica Virginia Woolf presenciou com seu marido, Leonard, num brejo, acompanhou-a até o final da vida, tornando-se uma cena de seu último livro, Pointz Hall. Representa o imperialismo de todos os tempos, vitimando países e populações, além de culturas. E extirpa os valores humanos pela raiz a pretexto de salvar o homem.

Na época da visão da cobra e o sapo, início dos anos 1930, uma crise econômica de grandes proporções assolava a Inglaterra e o mundo capitalista. Estopim da bomba? De uma delas, são tantas, e quando finalmente nos alvejam é tarde demais. São ignorados todos os sinais de decadência de valores e de acirramento de sentimentos extremistas. A guerra é insidiosa e se entremeia ao cotidiano com suavidade tenaz, em princípio, escamoteando a realidade, sempre com a cumplicidade da mídia de velas infladas na direção de ventos e interesses a favor.

Virginia tinha seu próprio e obstinado modo de leitura do noticiário, discernindo fato de fantasia. Temia tanto a invasão nazista quanto a propaganda inglesa e sua fogosa produção de heróis. Os heróis de hoje, pensava, talvez sejam os párias de amanhã, tocando realejos para sobreviver. Sabia, por experiência, como é sinistro o destino dos veteranos de guerra.

Virginia atravessou as sombras do cotidiano em meio às cisões, “a separação entre os reinos da grandeza e da pequeneza”. Nessa gangorra de sobressaltos, as contradições se aguçavam, especialmente na alma de uma artista como Virginia. Ela então milita, revê padrões, viaja ao passado na falta de perspectivas do presente, resgata a dor que acalentou a duras penas na vivência da Primeira Guerra. Psicanalisa, conclui que o peso do sofrimento do pai, também escritor, a condenou a viver em uma estufa emocional e intelectual. Que finalmente se estilhaça na chegada dos 50 anos.

"Todas as vaidades são menos que um caramujo na Zínia", escreveu Virginia Woolf a sua irmã, Vanessa, nessa idade, redimensionando os campos e superposições da existência. Alardeou que o alheamento não é alternativa para o artista, um ser amalgamado com as paixões humanas, por isso mesmo aprofunda a sensibilidade em tempos de sofrimento. A saída é optar pelo caminho possível, que é a política. E Virginia o trilhou.

Persistiu, produziu muito, sofreu e enlutou nos anos que finalmente culminaram na guerra declarada e em uma sociedade em desordem na qual o suicídio era assunto corrente. Em 14 de junho de 1940, as tropas nazistas tomaram a cidade de Paris, acuando a escritora e toda sua esperança de livramento do desespero interior.

Em 28 de março de 1941, retomando a cobra e o sapo, que a levaram a um pesadelo em que uma pessoa se lançava ao mar, descobriu que essa pessoa era ela mesma. Mergulhou no lago com pedras nos bolsos, asfixiou-se com a água e com a genialidade que escapa a classes sociais, escolhas políticas e sobretudo à mesquinhez da raça humana. Não quis punir ninguém, deixou cartas de amor para o marido e a irmã.


“Se eu não sofresse tanto, não poderia ser feliz”

(Virginia Woolf, em seu diário)

domingo, 10 de agosto de 2014

A TENTAÇÃO DE MATUSALÉM

 

Está na Bíblia: Matusalém foi o homem mais velho a morrer nesse planeta, tinha 969 anos. Era filho de Enoque, um bom servo de Deus, que foi arrebatado aos céus, não passou pela morte. O homem mais velho do mundo inspirou um conto, “A morte de Matusalém”, de Isaac Bashevis Singer, autor  que ganhou Prêmio Nobel.
 
O conto faz uma alegoria da vida humana na Terra, das contradições da carne, mistura de desejo e amor, ética e corrupção, meias verdades e mentiras inteiras, bondade e benevolência com o mal. Aos 969 anos, Matusalém só espera pela morte no seu abafado casebre: chega Naamá, a belíssima mulher que ele deseja já, literalmente, há séculos. Ela mora na terra de Caim, que se casou com Lilith, a Eva negra, luxuriosa. Os homens na terra de Caim convivem com demônios, assim como no nosso mundo, de Adão, os homens supostamente, convivem com anjos. Da trama engraçada vem a interpretação da perfeita alegoria que é a vida do homem no mundo. Matusalém era avô de Noé, que já se empenhava na missão de construir a arca do dilúvio, porque Deus estava arrependido de sua descendência na terra, queria ter a chance de recomeçar.
 
Matusalém, depois de transar com Naamá, conhecer a terra de Caim, cheia de demônios e todas as barbaridades que, afinal, estão adormecidas dentro de cada ser humano, decidiu que só queria saber mesmo da morte honesta, estava muito velho para farras e para entender um mundo tão caótico. Pede para voltar à sua casa e amanhece morto no dia seguinte. Seus pensamentos ficam planando à volta do corpo exaurido, pronto para os vermes, ele pensa que todo castigo de Deus, como o dilúvio, é vão, porque desde o princípio carne e corrupção são uma coisa só. Por mais que os filhos de Adão tenham boas intenções, seu dom da razão é precário, as ilusões de espaço e de tempo os esvazia de propósito ou justiça.
 
 
Reprodução da obra "Lilith", de John Collier, 1887
 
 

MEDO DE AMAR

"Une premiere" Anders Zorn -1888

Um bando de moleques na beira do rio e um deles não sabia nadar. Como é que um menino de sete anos, de estatura baixa para a idade, com mãe morta no parto e pai que sumiu no mundo pode não acompanhar a turma em uma aventura sem ser chamado de covarde?

Uma mistura de ingenuidade com arrogância sempre dominou a criança, que chegou a deixar a vila uns três anos antes, em direção ao sul, de navio, escoltado pelo pai, o próprio. Jamais se esqueceria da cena, talvez a mais feliz de toda a sua vida, pensou no mesmo instante em que ia tirando a roupa para pular na água. A lua estava no céu e o sol se punha lentamente, espumando em cores nervosas no horizonte atarracado com o convés. Rio de Janeiro, isso mesmo, este, o destino. Desembarcaram só para, nem dois meses depois, o pai se apaixonar por uma estranha.

Obedeceu o coração e a mulher, enviando o filho de volta para o sertão junto com um conhecido. No caminho, sacolejando no ônibus que cheirava mal, o garoto comparava o por do sol...sim, o que se avistava tinha sua beleza, mas o da chegada à cidade grande tomava a maior parte da sua memória de coisas boas.

Voltou à tarefa, cueca no chão, não tinha mais desculpa, era mergulhar ou apanhar. Pulou sem uma noção precisa do que estava fazendo, talvez quisesse morrer. A correnteza o levou, tudo escureceu como lamparina que fica sem azeite no meio do mato. Recobrou os sentidos com o tranco da curva do rio, que segurou firme seu pequeno corpo como talvez a alma de mãe no céu o fizesse. Ou tenha feito.

Desenroscou-se dos galhos, detritos, escalou um pedacinho de ribanceira. Percebeu que tinha se afastado quase 500 metros do ponto em que saltara para o susto.

Tornou a se assustar quando viu que sua roupa tinha sido levada. Nu e à margem, decidiu sem opção rumar para casa, buscando sombras e beirada de muro onde se esconder. Estava bem próximo de ser bem-sucedido no esforço quando a tia gritou, chamando a atenção -- pareceu à criança -- até de quem estivesse dentro de casa no outro lado da cidade.

Recolheu-se, foi recolhido, nunca mais ensolarou até decifrar a cidade de pedra, para onde se mudou, cresceu, estudou, casou, teve filhos, netos, e cumpriu a determinação férrea de não lamentar passado. Comprometeu-se com a felicidade por decreto e pouco se desviou nem das cláusulas minúsculas no rodapé. Quando de novo submergiu nu até o pescoço não estava nem no Rio de Janeiro nem no da infância. Resgatado aos gritos pela vida, foi repreendido pela alma da mãe: “quando é que vai aprender a nadar?”

                                                                        (...)

 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O COBRADOR VEM AÍ E ELE NÃO ESTÁ DE BRINCADEIRA


 

“Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.” Este é um trecho do conto O cobrador, de Rubem Fonseca.

 O autor consegue criar um personagem saído do esgoto da humanidade pronto para cobrar todos que lhe devem alguma coisa. E é praticamente todo mundo, inclusive o marginal que lhe vende uma super arma.

E o cara da Mercedes que buzina e o assusta num momento em que ele estava se distraindo com uma esgarçada sensação de felicidade ao imaginar que, em minutos, estaria com a nova arma no bolso. Matou o sujeito.

A gênese desse sujeito obcecado em cobrar não importa. Se alguma circunstância familiar agravante detonou uma psicose, isso é tema para estudiosos de gabinete. E a conclusão a respeito não importa. O “cobrador” é verossímil, legítimo e reinventa o próprio ódio como espectador do templo do consumo. Ele conta:

“Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta. Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar.”

O despojamento do autor do conto, ao não se preocupar com ser politicamente correto, com fazer denúncia ou ceder a qualquer elaboração intelectual ao longo da narrativa, é o que mais prende à leitura. E Fonseca consegue surpreender, como se já não bastasse tanto súbito em toda trama: o seu protagonista é poeta. Mesmo! Ele revela sua vocação a certa altura da estória, na casa de uma dona, uma dura, que o pegou na rua:

“Ela pergunta o que eu faço e digo que sou poeta, o que é rigorosamente verdade. Ela me pede que recite um poema meu. Eis: Os ricos gostam de dormir tarde/ apenas porque sabem que a corja/ tem que dormir cedo para trabalhar de manhã/ Essa é mais uma chance que eles/ têm de ser diferentes:/ parasitar,/ desprezar os que suam para ganhar a comida,/ dormir até tarde,/ tarde/ um dia/ ainda bem,/ demais./
Ela corta perguntando se gosto de cinema. E o poema? Ela não entende.”

Até aí, o cobrador não tem interlocutor, situa-se fora de qualquer média, acima dos perambulantes da rua como ele, abaixo dos intelectuais, acima dos pequeno-burgueses amantes de comerciais de TV e ignorantes dos direitos de um cidadão.

Não é possível dizer que dá pena ver ele errar na mão por buscar tudo no tiro, na ironia e no tapa. Na ironia porque ele não grita e sempre, ao final de cada ato, ri com descrença dos seus pares ou párias. Não dá para julgar criatura tão deformada pela existência. Chega um momento em que vem uma vontade de torcer para que ele saia daquele lugar onde foi parar. Mas se é um beco, podem pensar os mais apressados!

E daí nova surpresa,  outra bizarrice, desta vez confundida com final feliz. O cobrador ama e é correspondido. Extraordinariamente correspondido por uma branca, ressalta, que mora num prédio de mármore na zona sul do Rio. Vira amador além de cobrador.

Ana, a amada, que ele apelida de “palindrômica”, vai para o subúrbio morar com o delinqüente às vésperas do Natal. Surpresa, ela gosta de armas. Impregna o ar com proposta que cheira a ideologia, mas é pura anarquia. O cobrador agora amador pensa em profissionalizar o estilo. Mas não embarca nos sonhos, continua religioso na descrença.

“Hoje é dia vinte e quatro de dezembro, dia do Baile de Natal ou Primeiro Grito de Carnaval. Ana Palindrômica saiu de casa e está morando comigo. Meu ódio agora é diferente. Tenho uma missão. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei. Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo. Ana me ensinou a usar explosivos e acho que já estou preparado para essa mudança de escala. Matar um por um é coisa mística e disso eu me libertei. No Baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos. Será o meu último gesto romântico inconseqüente. Escolhemos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um supermercado da zona sul. Serão mor­tos por uma bomba de alto poder explosivo. Adeus, meu facão, adeus meu punhal, meu rifle, meu Colt Cobra, adeus minha Magnum, hoje será o último dia em que vocês serão usados. Beijo o meu facão. Explodirei as pessoas, adquirirei prestigio; não serei apenas o louco da Magnum. Também não sairei mais pelo parque do Flamengo olhando as árvores; os troncos, a raiz, as folhas, a sombra, escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter, num pedaço de chão de terra batida. Eu as vi crescer no parque e me alegrava quando chovia e a terra se empapava de água, as folhas lavadas de chuva, o vento balançando os galhos, enquanto os carros dos canalhas passavam velozmente sem que eles olhas­sem para os lados. Já não perco meu tempo com sonhos.”

O final da história está no livro. O livro leva o nome do conto, O Cobrador. Vale a pena procurar o cobrador antes que ele procure por um de nós, afinal, ele não se aposentará enquanto persiste o império da injustiça social.


( Ilustração do Blog Via Literatura)



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SHARON E EU





O despertador nem tocou ele já  tinha pulado da cama. Olhou lascivo para a loira na parede do escritório. Como se não visse aquela barriga mole de chope, a falha  de cabelo no alto da cabeça e um dente molar ausente na arcada amarela de nicotina, sentiu-se o mais irresistível dos homens diante do espelho do banheiro. A esposa que madrugara arrumando café e despachando menino pra escola estranhou encontrar o marido já  no banho tão cedo. E de ótimo humor, como pôde constatar mais tarde. Um ardente beijo de despedida deixou a mulher ainda mais desconfiada o resto do dia. Que bicho tinha mordido o homem resmungão com que se casara? 

Consultando o relógio, ele constatou que chegaria com tempo de folga. Queria ficar bem colocado no saguão, pra ver de camarote. Só não contava com um congestionamento recorde, absolutamente incomum, no caminho. Roeu todas as unhas e andou quilômetros pelo corredor do ônibus, num vai-e-vem frenético limiar do desespero. Quando finalmente desceu no ponto de seu destino, disparou em direção ao prédio. Aonde chegou bem a tempo de ver uma limusine saindo cercada de enorme multidão. Avistou Denílson, o filho da mãe sortudo, no meio. O amigo confirmou sua suspeita: Sharon Stone já  havia ido embora. Durante a meia hora em que ficara no prédio alimentou incontáveis fantasias nos marmanjos de plantão. Tinha quem jurasse que cruzara com ela na porta do toalete e que ela lhe enviara um sexy beijo. Chegaram, alguns, a dizer que tinham ganho souvenirs da deusa. E todos foram unânimes: era mais bonita ao vivo que no cinema. 

O inconsolável homem que não viu nada vestiu sua capa branca e foi se acomodar na cadeira manca do laboratório, conformado com mais um dia de muito trabalho. Nessa hora, entra Denílson com uma latinha. “Adivinha o que eu tenho aqui?” E o que poderia ser, imbecil, se estava numa latinha e aquilo era um laboratório de análises clínicas? “As fezes da Sharon Stone”, e o amigo anunciou empolgado que ele fora o contemplado da sorte: ia processar o exame da loira diabólica. O homem sorriu amarelo, com ar de dúvida. Seria tão vantajoso assim? Só teve certeza de que estava pagando um mico quando abriu a lata, aspirou o odor e uma náusea o fez ver que, afinal, Sharon Stone não era tão especial assim. Ela fedia como todas as outras. “Lembre-me de jogar fora aquele pôster de ´Instinto Selvagem´ do escritório”, pediu à esposa, por telefone, já reencarnado no marido resmungão e entediado.

MACHADO DE ASSIS: QUEDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS





Tradução, adaptação ou simples plágio? Há mais de um século estudiosos questionam a obra machadiana "Queda que as mulheres têm para os tolos" numa investigação rigorosa que não chegou, nem chegará, a uma conclusão definitiva.

Publicado em cinco capítulos entre 19 de abril e 3 de maio de 1861, na revista carioca quinzenal A Marmota, o texto escrito por Machado nunca trouxe indicação de autoria ou versão, prática comum na pré-história dos direitos autorais.

Seja como for, esse livreto compara homens apaixonados "de espírito" a "tolos", além de, com muita delicadeza, desqualificar as mulheres na sua capacidade de julgar as intenções "sérias" ou "risíveis" de homens e homens. E Machado de Assis se reporta a Victor Hénaux, em De l´amour des femmes pour les sots (ver Queda que as Mulheres têm para os Tolos – Editora Unicamp) para gerar mais polêmicas na vida já cheia de controvérsias dos casais.

Machado defende que as mulheres preferem os tolos porque eles são óbvios, pródigos em elogios, e inconstantes, passando de conquista a conquista sem crise de consciência, já que o público feminino lhes concede, numa próxima e próxima vez, o privilégio da escolha.
Já os pobres homens de espírito carregam lembranças de amores eternos não correspondidos pelo simples fato de serem "sinceros" em vez de melodramáticos. Qualquer semelhança com os dias de sempre pode não ser mera coincidência.

Hoje mulheres comandam decisões mundiais, são chefes de família em porcentagem que quase se iguala à dos homens, levantam a cabeça e assumem suas vidas quando estão sós. E as decisões românticas: privilegiam coração, razão, felicidade pessoal ou desvarios do amado? Esta é para pensar em casa, lendo Machado de Assis e despindo suas controvertidas e magistrais protagonistas feministas.

DUAS CARTAS E SETE PERGUNTAS PARA DRUMMOND






Quando Carlos Drummond de Andrade morreu, em 17 de agosto de 1987, muitos amigos meus me trataram como viúva. A essa altura, eu e o Carlos – que é como a família dele, particularmente netos, o chamava – já tínhamos uma pequena história, nascida em novembro de 1985.

Nessa data, escrevi uma carta para ele, solicitando uma entrevista. Demanda injustificada, assumo, considerando-se que eu nem estava trabalhando em algum veículo jornalístico e mal tinha começado a ser “foca” na vida. Fui inspirada pelo Halley!

Em 1910, o cometa passou pela terra espalhando o medo infundado de que envenenaria a atmosfera, causando muitas mortes. Drummond tinha oito anos, acompanhou atentamente o episódio e, mais tarde, reproduziu-o em crônica.

A crônica serviu de prefácio para um livro de 1986, que falava sobre a volta do Halley naquele ano. Eu revisei o livro e, conversando com o editor, descobri que o poeta era muito acessível, tinha enviado, por carta, uma autorização para a publicação do texto, sem mais.

A primeira carta

Pedi e peguei o endereço do Drummond, caneta, muitas folhas de papel e me sentei à mesa, planejando o que dizer para despertar o interesse do Carlos por mim. Depois de muitas páginas rasgadas e abandonadas, baixei a censura e contei como aprendera tanto sobre a vida com ele.

Fui flechada por Drummond definitivamente aos 11 anos, quando reli Quadrilha em plena fase de paixão desenfreada não correspondida. Ali me convenci de que, no amor, a gente raras vezes acerta de primeira. Assinei a longa carta e mandei para os correios, me esqueci.

Voltando para casa, num fim de tarde, encontrei embaixo da porta um envelope manuscrito, no verso, numa etiqueta, as famosas iniciais CDA e o endereço da rua Conselheiro Lafayette. Abri e nem acreditei: “Sua carta é linda e uma carta assim é um retrato espiritual de quem a escreve”... Palavras dele, numa letra cuidadosa e familiar!!!

Drummond me respondeu brevemente, com a sua assumida economia de palavras, dizendo-se disposto a atender-me na entrevista solicitada, mas que fosse à distância, porque dezembro era um mês “febril de chuva e calor, compras e vendas, barulho, etc.”

Propôs: "mande-me perguntas por escrito e eu, na calma do escritório à noite, responderei a tudo. Combinado?”

O alívio por ter escrito a carta certa (tantas vezes rascunhada, rasgada e reiniciada), e obtido a melhor das respostas, me travou. Eu não conseguia responder.

A segunda carta

Levei mais de um mês para lhe enviar as perguntas solicitadas “por mim mesma”, sofri ainda mais para escrever do que na primeira vez, tanto que só consegui formular sete perguntas.

Mas Carlos foi rápido no retorno, respondeu à minha atrasada carta com uma bronca discreta e uma reflexão:
“31 de janeiro de 1986

Cara Chris,

Já nem esperava mais receber as suas perguntas e concluí que, se elas não vieram, era porque as respostas seriam dispensáveis. Afinal, toda resposta, diante do silêncio de Jesus perante Pilatos, não é mesmo insignificante?”

(Não, pensei, não há nada de insignificante nas respostas de um homem que colocou uma pedra no caminho convencional da escrita)
 
A carta continuava: “mas você acabou me formulando sete questões e aqui estou tentando respondê-las, com o pior serviço datilográfico do mundo, perdoe.”

Seguiram-se as respostas, vou deixar de lado as questões e apenas apontar os temas que abordei, são eles:

Crônicas aposentadas
1) Deixei de escrever crônicas porque já me aborrecia fazê-las, depois de anos de militança. Tudo cansa, inclusive e principalmente escrever. Não busquei novos caminhos: apenas o silêncio.

Queima de diários
2) Não tenho mais diário, e no Observador no Escritório deixei claro que destruí o que mantive por muitos anos, na convicção de que é inútil deixar essa espécie de autorretrato de coisas íntimas para a posteridade.

Anos que passam
3) Minha relação com o tempo é a do comum das pessoas, nada simpática. Assisto à desmontagem do ser que ele construiu e que depois vai se divertindo em destruir, você acha isso engraçado?

Sobre o suicídio (Pedro Nava, seu grande amigo, havia acabado de se suicidar)
4) O suicídio continua sendo para mim um dos maiores mistérios. Toda especulação em torno de suas notificações e significados continua vã, pois falta o testemunho do principal interessado, o suicida. A única coisa que posso dizer é que não o condeno.

Sobre o amor

5) É um aprendizado infinito, que a vida não deixa concluir.

Sobre agradar os fãs
6) Nunca tive pretensão de influir sobre qualquer público e se há leitores que me distinguem com essa simpatia, isso ocorre por conta exclusivamente deles. Isso me conforta, é claro, mas não me anima a escrever em determinado sentido.

Sobre Minas (onde nasceu)
7) Carrego Minas como um peso leve nas minhas costas, um peso de que não me livraria, mesmo que o quisesse (e não quero).

Perguntas respondidas, desculpou-se na despedida: “Fui muito rápido, Chris: Desculpe o mau jeito de nascença e receba um carinhoso abraço do Drummond (assinou).














MÁRIO LAGO: SEM CASACA E DE BRAÇO DADO COM A BOEMIA





Dia 26 de novembro de 2012, Mário Lago completaria 100 anos. Morreu em 2002 sem contas a acertar com a vida. Fez tudo o que quis, dispensando já aos 13 anos a casaca de diplomata da qual a mãe fazia questão. Justificou para o filho: “Você é alto, magro, vai cair muito bem”.

Lago tinha outros planos e, apesar da pressão contra, ninguém na casa tinha moral para reclamar. O pai e avós, além de tios, eram todos músicos, como Mário que, já aos 15, fez uma marchinha para a namorada, com declaração de amor ditada pela militância política, outra vocação. Dizia: “nosso amor vai melhorar quando vier a Constituição”.

Com esses versos, o adolescente selou o destino definitivo e um elefante branco invadiu a sala de visitas da casa. O pai sentenciou: “Você está treinando para profissão de fome”.
Ainda bem que não foi praga, nem foi de coração, não pegou. Mas dinheiro, a julgar pelo que o Mário personagem público expunha, nunca sobrou. Nem faltou. Em entrevista no programa “Ensaio”, da TV Cultura, Mário se aventurou a fazer uma conta de cabeça. Complicou-se tanto que ninguém conseguiu sequer ajudá-lo. Explicou que foi reprovado três vezes em matemática e soltou a piada, já que bom humor, sim, esbanjava: “Eu não sei somar, por isso sou pobre, sei menos ainda multiplicar”.
Este é "o" Mário, segundo contam a lenda, a história e seu filho, Antônio Henrique Lago, jornalista, que faz aqui um rápido e delicioso perfil do pai. Antônio Henrique tem o mesmo humor e convicções do pai, além de já ter produzido obras memoráveis no campo da reportagem.

Acompanhe a entrevista que fiz, a seguir:

Ator, produtor, diretor, compositor, radialista, escritor, poeta, autor de teatro, cinema, rádio e TV, frasista (que eu trocaria por “filósofo do cotidiano”), militante sindical, ativista político e boêmio. Está tudo lá, no site oficial do Mário Lago. Entre tantas facetas, uma ou algumas se sobrepunham a outras?
Antônio Henrique Lago - O político sempre. Discutia as questões brasileiras diariamente com a família, amigos, o motorista de táxi, qualquer um que puxasse conversa. A pregação por uma sociedade mais justa e igualitária jamais ficava escondida ou em plano secundário. Papai nunca perdeu uma campanha política. Comunista por formação ideológica, sempre apoiou os candidatos de esquerda e do seu partido.
Mas há também o ator, sempre, porque este foi uma parte importante da vida profissional dele. Dar vida a personagens era parte do “ser Mário Lago”. Fazia laboratório sozinho para enriquecer o papel, discutia com o autor e diretor todas as cenas. Atuar era um exercício de vida!
E o escritor/autor/poeta, igualmente, sempre. Nos intervalos de gravação, nas férias, ele criava sempre um projeto para escrever. Durante as filmagens de O Padre e a Moça, recolheu material para um livro sobre o Chico Nunes das Alagoas, repentista e boêmio. Numas férias, traduziu a peça Fuente Ovejuna, do espanhol Lope de Vega. Do mesmo modo, escreveu uma peça sobre a revolução dos alfaiates - Foru Quatro Tiradentes na Conjuração Baiana -- que acabou censurada. Nunca deixou de compor, não havia como conter os versos.

Em casa, quais características pessoais predominantes você enumeraria?
AHL - Conversa franca, sobre qualquer assunto. Respeito às decisões de cada um da casa. Clima muito democrático.

Boêmio em um casamento que durou a vida toda. Como o Mário dividia o tempo entre o amor/família e as paixões, como a arte. Ficava em déficit com um lado ou outro?
AHL – Olha, papai sempre ia para os locais da boemia e levava minha mãe junto, mas eu lembro de ele chegar para uma conversa noturna sobre política, meus estudos - às vezes ele até me ajudava com os trabalhos escolares. Discutíamos minhas decisões pessoais e ele sempre respeitou as minhas escolhas. Ele e mamãe tinham a democracia entranhada no corpo e na mente.

Como era a casa do Mário? Um burburinho de música, amigos, festas? E o silêncio para criar, também habitava esse lar de artista?
AHL - A porta da casa de papai estava sempre aberta. Dolores Duran ia lá mostrar músicas. Carlos Marighela ia lá discutir coisas do PCB. Meus amigos e companheiros de militância política iam lá conversar. Era assim desde que me entendo por gente.
Na hora de criar, papai ia pro quarto, fechava a porta e se transportava para a criação, quer fosse para estudar as falas de um personagem, quer fosse para tocar o projeto de um livro.

Em uma frase, na sua opinião, qual o maior legado do Mário para:
- Você, filho
AHL - A defesa de uma sociedade justa e igualitária com o fim da exploração do homem pelo homem.
- A arte
AHL - Grandes interpretações como a do pescador Santiago, de O Velho e o Mar; e o Atílio da novela Casarão. Os versos de Nada Além, de Aí que saudades da Amélia e Aurora.
- A sociedade
AHL - Um exemplo de coerência política, honestidade de princípios. Tudo parte da luta pela sociedade sem exploração e opressão.

Sem segunda opção, qual música, filme (como ator ou diretor), papel na TV você colocaria como número 1 no ranking das criações do Mário?
AHL - Como música, eu gosto mais, puramente pessoal, do Nada Além. Mas sempre me emocionei muito nos bailes de carnaval ao ouvir o povo cantando Aurora. O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, como filme. E papel na TV foi o Atilio, do Casarão.

Mário criava compulsiva ou metodicamente? Há ainda muita produção dispersa, inéditos? O que podemos esperar?
AHL - Papai era um criador compulsivo/metódico. Ele não podia ficar parado. Se não estivesse gravando, estava bolando algo e escrevendo.Escrevia, depois lia, corrigia, mudava, lia de novo e assim por diante, até ficar satisfeito.

O Mário era polivalente e multimídia. Como ele se relacionava com as novas tecnologias? Chegou a incorporar essa linguagem internética a seus trabalhos?
AHL - Papai não chegou a usar a tecnologia multimídia moderna. Ele exercia a multimídia pessoalmente. Acho que a formação sem a internet bastou para ele. Além do que ele conviveu muito pouco com a internet.

Qual, na sua opinião, foi a grande realização dele no campo das artes? De qual ou quais obras ele mais se orgulhava?
AHL - Papai achava que cada texto, música e personagem eram um sucesso particular e parte do todo que ele considerava o melhor da sua obra. Ele realmente gostava de tudo que fez.

E na política, qual a grande conquista e a grande frustração na sua vida de lutador?
AHL - Ele tinha muito orgulho de ter participado do comando da greve dos radialistas de 1962, que resultou na regulamentação da profissão. E de ter participado das lutas pela liberdade e ter visto as quedas das ditaduras de Getúlio Vargas e dos militares. Acho que frustração foi a de ver que o homem ainda vive numa sociedade intrinsecamente injusta e exploradora.

Pacifista e inconformado, por isso mesmo eterno militante, que causa ou causas você acha que ele defenderia hoje?
AHL - Acho que ele continuaria a lutar contra a exploração do homem pelo homem. E, é claro, as causas ambientais também estariam entre as suas preocupações.

Fonte: Portal Vermelho

UM CORAÇÃO PARA HOMENS DE LATA


Um coração para o homem de lata, um cérebro para o espantalho, coragem para o leão e um lar para Dorothy. Esta é a busca dos personagens de O mágico de Oz, um musical clássico de 1939. A maioria dos fãs compra a versão de que é uma história típica de Hollywood com final feliz. Poderia ser se não tivesse Yip Harpurg como letrista.

Yip escreveu também o “hino da depressão”, em 1932, no qual narra o engodo do sonho capitalista. O Mágico de Oz resgata o sonho, realizável além do arco-íris, ou das fantasias do mundo imperialista que Yip, socialista, sempre combateu.

Do palco para a depressão
Posso imaginar o letrista Yip Harburg em um bar freqüentado por roteiristas, artistas, compositores da Broadway, logo após a quebra da Bolsa de Nova York em 1929. Os pedintes nas esquinas o deixam indignado. Também inspiram.
Yip começa então a rabiscar num guardanapo a letra da música que se tornaria o verdadeiro hino da depressão norte-americana. Um gole na bebida e um verso: ““Eles me diziam que eu estava construindo um sonho”. Outro gole, novo verso: “Com paz e glória à minha espera”. Engole a seco, conclui a quadra: “Por que então estou aqui na fila/ esperando apenas por um pedaço de pão?”
O título da canção “Brother, can you spare a dime?” pode ser traduzido por “Amigo, você tem um trocado?”. Bing Crosby gravou em 1932 -- muitos outros famosos regravam até hoje -- e foi um retumbante sucesso.
A música expõe a realidade estúpida do operário -- personagem da letra -- que construiu tudo o que constitui o “american way of life”, de ferrovias a mansões, grandes torres e edifícios, mas não tem um tostão no bolso e fica na esquina, espiando a pressa dos ricos na tentativa vã de ser ouvido na sua pobreza.

Da depressão para a guerra
O tempo passa, chega 1939. O mundo se confronta com a guerra. Yip cria o Mágico de Oz. Dorothy, o leão, o espantalho e o homem de lata metaforizam o drama e transformam a história em uma fábula universal.
A canção-tema, “Somewhere over the rainbow”, gravada por Judy Garland, resgata o sonho, não o capitalista, mas o dos direitos humanos, que Yip persegue como bom socialista. O tema principal? Voltar para casa, um espaço onde somos aceitos, compreendidos e amados!
Voltar para casa também é chegar a um lugar além do arco-íris, diz a letra, e esse lugar não tem nada a ver com o tal pote de ouro do folclore popular. Também não tem relação com posse ou poder, conforme explica o medroso leão, na cena em que assume por breves momentos o posto de rei dos animais: “A diferença entre um rei e um escravo é a coragem”. Logo a coragem o abandona e ele rasteja diante do mágico no trono.

Da Broadway para a lista negra
Yip Harburg, filhos de pais imigrantes de origem russo-judaico, conheceu cedo na pele a pobreza e o preconceito e nunca virou as costas ao passado miserável.
Ao longo da carreira, escreveu letras para mais de 600 canções em parceria com uma variedade de notáveis compositores.
De 1951 a 1961, durante a temporada de caça a artistas, celebridades e jornalistas supostamente remota ou completamente ligados a comunistas, promovida pelo Senador Joseph McCarthy, Yip foi para a "lista negra" em função de suas idéias políticas sobre cinema, televisão e rádio. A Broadway, no entanto, manteve-se livre desse tipo de censura, só por isso o autor pôde continuar trabalhando, embora perseguido.

De Hollywood para o Havaí

Yip Harburg morreu em 5 de março de 1981 aos 84 anos. Seu espírito visionário não morreu, muito menos sua obra, que continua inspirando ativistas de todo o tipo, como Israel Kamakawiwo.
Nascido em Honolulu, Israel nunca ocultou a sua posição a favor da independência do Havaí e de defesa dos direitos dos nativos. Regravou “somewhere over the rainbow” em um mix com “What a wonderful World”.
O cenário, o humor e o ritmo são outros; o sonho, não sei, mas gosto de pensar que continue sendo o mesmo sonho de Yip.

CHICO BUARQUE CONTA OS MINUTOS COMO AVARENTO




O autor, cantor, compositor, andava pelos domingos solitários no Rio cruzando com conhecidos desejando boa sorte, e ela chegou, na figura de uma talentosa cantora e compositora, Thais Gulin. A moça o fez navegar nas ondas avassaladoras da internet e lhe apresentou o rap, ele lhe ensinou o baião. Os dois ensaiaram e confessaram em dueto: “se eu soubesse não saía à rua, nem cantaria que te amo demais se fosse capaz”. Tudo mentira!

Verdade que a jovem de pele branca e cabelo cor de abóbora é de outro planeta, mas o “mané” de cabelo cinza sabe percorrer rios e mundos para chegar a qualquer mulher, que dirá à amada.
Eu me arrisco a pensar que se conheceram em uma festa junina, onde ele viu tremeluzir seu vestido através da fogueira. Se assim foi, neste mês, quem sabe neste dia 19, a dupla completa um ano da descoberta do amor e ele, 68 de vida, número histórico como o histórico ano de rebeldes e hippies que jamais terminará.
O homem teme, sente que vai penar com a pequena, mas já valeu a pena, jura e sorri na turnê mais apaixonada que já se viu. Quem duvida que o amor pode estar logo ali, virando a esquina, como canta Nina Simone, outra musa dos enamorados? Eu não!
Não sei por que esse amor nessa hora...reclamam, mas dão a receita: é algo “tipo um baião”